27 de Outubro de 2008

O Gerente Ex-perto dos Santos e o funcionário Tolo da Silva.

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Ex-perto era uma pessoa simpática e amigável, sempre com uma frase de efeito e um sorriso nos lábios.
Já o Tolo da Silva era calado e sempre sério. Era avesso as manchetes do fumódromo e a sala de café, longe de ser um estilo forçado, isso era algo natural de sua personalidade.
As pessoas nada tinham a falar do Tolo, afinal, cumpridor de suas tarefas e zeloso com seus afazeres não permitia margem para a imoralidade alheia, era simplesmente enfadonho falar dele.
Ex-perto por sua vez, com seu brilhante sorriso e o lépido tapinha nas costas, sabia através de todas as fontes oficiosas da intimidade de seus pares, subordinados e superiores, talvez naquele cenário, fosse algo imprescindível a sobrevivência, talvez…
Mas o fato era o Tolo.
Ele em seu silêncio divagava sobre questões morais e via nisso tudo uma enorme perda de energia, seu próprio âmago criara asco com a atitude de Ex-perto. Outrora pensou certa vez:
- Poderiam ter sido amigos de pescaria.
Mas as visões antagônicas geraram naturalmente uma história a parte.
Ex-perto subiu e virou chefe direto de Tolo, que na sua humildade de sentidos, viu a possibilidade de finalmente criar laços mais sólidos com o gerente e assim corrigir toda aquela indecifrável repulsa.
No início, Tolo motivado sentiu-se possuidor de um papel especial naquela organização. Auto didata colocou para o papel suas observações e tinha em Ex-perto seu mestre. Mas nada é mais cruel que a sucessão de dias para algumas questões. O senso pragmático de Tolo lhe dizia que estava na hora de mudar o papel e em um conflituoso embate deu voto a chance para seu chefe.
Certa vez, ao estar próximo ao fumódromo pensa em, pela primeira vez comungar com as pessoas dali e escuta Ex-perto dizer:
- Tolo é uma Zebra! Deu apenas sorte!
Apático e triste ele caminha para sua sala. De fato Tolo deu sorte em arranjar aquela posição, mas ciente disso, se empenhava para mantê-la e quem sabe pode crescer.
Zebra… Zebra… Zebra…
Essa frase ecoava pela sua mente sempre que via Ex-perto.
Ele percebeu que nunca poderia pescar com seu chefe.
Anos se passaram e o seu asco já era, enfim, sentido por todos e apesar de seu firme propósito em manter-se em silêncio, até o dono da empresa já havia percebido a total falta de prestígio que Ex-perto tinha com o Tolo.
Ele por sua vez estava nitidamente cansado e sua aparência combalida já não lhe fazia jus a quem de fato, era.
Por fim Tolo consegue a duras penas uma nova posição no mercado, apesar de ter uma queda considerável em seu orçamento ele decide seguir em frente e se livrar daquele cenário. Exultante, pensa:
- Findo o meu horário, nada levarei daqui.
Começa o trabalho na nova empresa e anos se passam. Ele aprende que sua firmeza em relação aos seus propósitos estavam certos.
Ex-perto se aposenta naquela empresa.
Tolo continua seu caminho e vai galgando lugares graças aos trabalho duro e sobretudo, a maneira de ser fiel com as pessoas.
Por fim, o RH envia o candidato escolhido para a aprovação de Tolo, que adora o rapaz novo.
Mas quando depara-se com a ficha lê assombrado:
Ex-perto Filho dos Santos.
O rapaz que até então, feliz encontra-se, por havia percebido no ar um ambiente positivo, fica apreensivo.
Tolo, a despeito de todas suas qualidades não consegue vencer esse obstáculo e termina a entrevista. Antes de Ex-perto Filho sair, Tolo diz:
- Diga ao seu pai que esteve comigo (o recado era claro, não para o filho!).
O departamento de Recursos Humanos envia outro candidato, que acaba sendo contratado.
Ex-perto Filho chega em casa e conta sua experiência ao pai. Ali ficam durante alguns instantes num silêncio inquietante. Ex-perto diz para o filho:
- Hoje da pior maneira possível acabei lhe dando a maior lição sobre o que não devemos fazer nas empresas.
E então começa a história:
- Eu era assim..

Abian Laginestra

24 de Outubro de 2008

Conquista

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Já muito quis arranhar o céu,
molhando meus dedos entre nuvens.
E secando minha boca com o ar.
Mas hoje tenho outros sonhos.
Reais.
Desprovidos da pitoresca mania do excesso.
Quero,
agora,
tocar as pessoas.
Dizer algo que fique e não seja descartado,
Tal como a próxima sensação de consumo.
Quero participar,
Ser,
Agir,
Intuir,
Ajudar.
Quero muito,
Muito do pouco que não vê mais nos dias de hoje.
Quero humanidade para pessoas.
Humanidade para animais e plantas.
Desejo seu sorriso,
O seu melhor
Agora vejo que conquistar o azul era tão fácil.
Mas não há parada no meio do caminho.
Conquistemos, sejamos conquistados.
Todos juntos no céu,
Fazendo malhas nas brancas nuvens,
Zebras e girafas.
Conquistando coisas sem preço.
Somos todos nós.
É agora.

Abian Laginestra

22 de Outubro de 2008

Manhã para um anjo

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O sol tímido que hoje iluminou meu rosto e me fez despertar,
deixou ainda mais bela essa fria manhã.
E o meu primeiro pensamento, pensar de um homem que ama, foi, fazer-te feliz.
Pus-me a tratar do seu dia, como nosso dia.
Coloquei-me em guarda para proteger-te de todo o mal.

Comprei teu pão, fresco e quente.
As frutas coloridas e cheirosas para adocicar tua manhã,
O queijo, nem salgado nem com sal demais do jeito que você gosta e sempre difícil de se escolher.
Apenas o jornal evitei, não queria que o mal do mundo invadisse hoje tua vida.
Mas meia dúzia de revistas, pedi ao jornaleiro.

Com as mãos cheias nada puder fazer,
senão pedir ao porteiro que subisse sem avisar-lhe.
Invadi tua casa, sorrateiramente, como invado tua mente em certos momentos.
Larguei o pão numa cesta, o queijo em uma tigela,
As revistas na sala e saí novamente na cálida manhã de orvalhos cintilantes.

Flores e chocolate…eis o que faltava.
Talvez o último não fosse conveniente,
não sei qual o último regime que você está a fazer.
Mas de qualquer maneira sempre estará bela.
Por último, barbeador, para receber tuas mãos em meu rosto.

O sol, incapaz de moderar o frio.
Obrigou-me a temperar teu banho quente.
Com a pequena névoa no banheiro, larguei as flores e o incenso.
De rosto limpo e arejado fui acordá-la.

Esguio e rápido entrei em teus lençóis.
E sobre tua testa depositei meu beijo quente.
E com um sorriso de criança, você abriu os olhos.
Antes de se espreguiçar estava lhe depositando na água morna.
E a cada gesto, seu olho brilhava ainda mais.

Renovada e cheirosa, em meu colo segue até a copa.
E lá pode provar do queijo que eu nunca sei se está correto.
Dessa vez, o chocolate foi bem vindo.
E ainda com preguiça permitida…o sofá e as revistas vieram a calhar.

E o mais reconfortante é que meu colo é lugar recorrente para você.
Nesses pequenos prazeres encontro a Paz.
O céu e sei que Deus me deu um anjo para cuidar.
Pois cada manhã com uma mulher é importante demais.

Abian Laginestra

14 de Outubro de 2008

Queria eu, madura como flor, ela.

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Ela tem um cheiro dela;
Um ar gostoso onde passa.
postura reta e rígida que doa o charme.
E apesar de toda essa aparente aspereza,
Nesse peito tímido, bate uma doce pessoa.

Seus olhos perspicazes sabem além do que se fala.
E o seu silêncio diz muito dela mesma.
Quando a iris muda para a mescla esverdeada,
percebe-se toda a sua força de mulher muito amada.
Até mesmo quando está zangada é serenamente elegante.

Mas esse tempo,
Cruel vilão de todos os contos,
Impossibilita-me de fazê-la minha.
E nessa impossibilidade reside uma insatisfação.
Uma incomoda dor resiliente.

Tão chata quanto o silêncio dela,
Ao perceber que seu cheiro,
Anima quando passa.
Tão incógnito quanto sua opinião daquilo que causa-me,
Quando propositadamente cala-se.

E assim segue ela,
Caminhando duramente em sua jornada.
Não se sabe se é gelo demais para quebrar,
Ou se é calor demais para conter,
Poderia até ser a opção de apenas assistir o desejo alheio.

Mas essas flores temperamentais,
Não se domam em grande potes,
Apenas se apercebem na natureza,
Deixando seu viço em breves eras.

Assim queria eu.

Abian M. Laginestra

13 de Outubro de 2008

Mulheres Modernas e Piadas Prontas. (MM & PP)

Gostei tanto do título que daria nome de uma consultoria ou de um grande escritório de Direito (MM & PP).
Francamente tento não fazer comédia com assuntos sérios, mas felizmente a vida é uma sucessão de piadas prontas.
Almoçando num desses restaurantes que só valem a pena na sexta-feira devido ao preço, sou tomado de assalto e começo a perscrutar a conversa alheia, também pudera todos os meus amigos estavam muito ocupados tomando litros de café, mexendo nas suas HP 12c e chorando pela perda das bolsas, como não tenho dinheiro, não investi em nada, não investindo, não perdi nada, ser duro tem lá que ter algumas benesses não?
A conversa da mesa ao lado girava em torno dos roteiros de viagem na América do Sul e por isso, antes que o leitor me ache um exímio interessado na vida alheia, me chamou a atenção pelas características ao ar livre dos trajetos abordados.
Entre uma garfada e a audiência da conversa, alguns itens me chamaram demais a atenção.
Piadas prontas, por exemplo…
A madame do lado, empolgadíssima com os roteiros lança:
“-Vou a Patagônia, mas nada vai me fazer desistir de conhecer o Peru!”
Tudo bem, uma frase perfeitamente natural se não fosse as conotações que os homens dão, quase sempre desprovidas de muito QI.
Imediatamente o rapaz a sua frente emenda:
“- Fulana, ainda bem né! Por que pelas suas últimas atitudes, estava ficando preocupado!”
Enfim, prestar atenção no desenrolar desse papo bizarro virou o entretenimento daquele Buffet tão caro.
Entre as gargalhadas vou me aprofundando na cena.
Observem que realmente era uma situação estranhíssima…
Fulana era Advogada, trinta e poucos anos e solteira
Diante de si havia uma estagiária, 9 anos mais nova. Fato que em si nada tem de estranho. Vamos chamá-la de Beltrana.
Entretanto, Beltrana havia nascido no mesmo dia que a sua mentora, tinha a mesma profissão, queria conhecer o Peru com o mesmo afinco e me pareceu que tinha as mesmas questões amorosas de Fulana.
Nesse exato instante me senti no raciocínio de Stephem King. Estava a observar sem querer o nascimento de uma História macabra? Provavelmente aquele rapaz seria servido mais tarde em uma receita moderninha de caldinho light para dieta?
Com surpresa passei a observar os personagens.
Fulana, uma figura distinta porém metida demais (vai ver era de Escorpião), só esboçava um largo sorriso quando o rapaz que as acompanhava fazia suas citações (assim ele seria mais facilmente enganado para o consumê).
Beltrana, filhote de Fulana, era psíquica. A cada 12 palavras olhava para o seu celular em cima da mesa e estalava as mãos.
O rapaz inconformado com a tensão da moça mais nova, perguntou se ela estava a espera de alguém ou do companheiro, ao passo que a mesma afirmou categoricamente que estava apenas preocupada com um “amigo”.
Cá entre nós, eu não queria ser esse amigo, afinal nunca havia visto anda tão fora do comum ao vivo. Pensei seriamente se as duas mulheres faziam parte de alguma seita.
Finalmente chega o garçom à mesa deles trazendo a batata frita que normalmente só vem com dois molhos. Fulana, indignada, retruca que “HÁ” e vem “SIM” o terceiro molho, o clone endossa a mentora e avisa ao rapaz para trazer o terceiro molho. Naquele momento percebi que estava diante de, no mínimo, uma história de Nelson Rodrigues. Comecei a ter pena do rapaz.
Findo esse breve diálogo entre o jovem garçom e as duas figuras, o acompanhante afirma:
“-Até eu teria medo de vocês!”
Percebam que todo esse apocalipse foi devido a falta do terceiro molho!
Mulheres modernas vai entender!
Por fim, o garçom volta, trêmulo e tenso naturalmente, talvez ele conseguisse ver a ferocidade das madames que estavam indóceis pelo molhinho. De maneira rápida mas não menos gaga, ele responde:
“- Maaaaadame, nãooo temos o terceiro momomolho!”
Nessa altura minhas mãos já não estavam no grafo e sim no celular, a postos para discar o telefone da emergência.
Salvo pelo companheiro da espécie, o rapaz acompanhante intervém e diz rapidamente:
“-Ok, tudo bem! Traz mais um chopp por favor!”
Ali vi uma pessoa renascer.
Nesse momento forma-se a segunda piada pronta.
Fulana afirma que a Argentina deve ser melhor que o Peru. Mas não tão encantador.
(tudo bem! Parem de rir ok!).
O ingrediente de caldinho Light morre de rir e todos esquecem o garçom.
A psíquica olhando para o celular e estalando as mãos discorre sobre as qualidades emblemáticas do seu amigo, enquanto ingrediente de caldinho light faz aquela cara de: “SEI”.
Estava óbvio e ululante que o clone tinha um affair mal resolvido com aquele “amigo”.
Sua mentora matou charada e incentivou a neófita a ir atrás desse mal resolvido caso. (Será que elas vão servir carpaccios de amigos?).
Naturalmente já estava na minha hora, além disso comecei a temer pela minha integridade. Em menos alguns minutos vi três vítimas dessas mulheres modernas, vai que elas saiam para almoçar e criar listas ou trocar receitas light, to fora!
Afinal piadas prontas e mulheres modernas é uma mistura bizarra demais.

21 de Agosto de 2008

Ventos

Publicado por admin em Amor, Comportamento, Alegria


Naquela tensão entre ventos de distintas regiões,
Formou-se um tempo extasiado.
Tempo parado, entre mechas que cobriam sua tez.
Tempo sagrado, entre poeiras infames que rodeavam sua luz.

Na balburdia retórica,
Algo silenciou os excessivos decibéis.
Tua tranqüilidade ante a maltratada cidade,
Fez-se assombro, fez-se arte.

Em caminhos separados nos cruzamos,
E entre os nossos olhares esquecemos de nós mesmos.

Nesse instante o tempo fluiu,
O vento chocou-se,
A poeira varreu o chão.
E sua luz correu célere de mim.

Ruídos irreconhecíveis,
Ruas descalçadas,
Desordem e desapego.
Insensibilidade.

Um passo contra a vida
Volto.
Já é tarde,
Aquele quântico de energia já havia desaparecido.

Quem sabe noutros ventos.

Abian Laginestra

20 de Agosto de 2008

Seco e o deserto

Publicado por admin em Amor


Minha sagrada criatura,
Peço perdão por fazê-la encantar-se com essa paisagem seca e árida.
A despeito dessa pedregosa e ocre pintura,
Sei que resiste a beleza,
Que somente teu formoso ser imprimiu.
Lamento, como recursos dos fracos,
A poeira que emerge desse peito e assola teus cabelos.
Ouço por algumas noites teus delicados pés tocando nas pedras,
Ainda quentes do dia, estalando como música,
Quebrando, confortavelmente o silêncio absurdo que sua falta fez.
Dúvidas…
Quanto tempo seria necessário reaver.
Para tão esplêndida mulher não tivesse que brigar contra esse cáustico deserto?
Quantas fogueiras deveriam ter sido apagadas,
Antes que a relva e mata dominante,
Por fim se dissipasse?
E o mais temeroso de tudo…
Quanta força ainda resta,
Nesse seu alvo sorriso largo?
Capaz de expurgar toda essa insensata secura.
Restabelecendo o paraíso idealizado por ti e por nós?
Enquanto estrelas cadentes de respostas,
Não se chocam contra as minhas pedras.
Cristalizo sua leve e fresca imagem,
No vítreo pouco úmido dos meus olhos.
Mas se faltar-me
Moções serão visíveis.

Abian Laginestra

21 de Maio de 2008

O meu consumo de cada dia - Ensaios do meu EU ecológico

Publicado por admin em Comportamento, Esperança, Aprendizado

Antes de tudo o texto que segue é uma opinião minha, particular.
Não tenho a vã esperança de que exista um consenso em torno dessas idéias, mas é necessário que pensemos com clareza e imparcialidade sobre o que vêm por aí. E sobre o nosso impacto individual no cenário que estamos.

Há alguns anos atrás me envolvi com grupos de causas ambientais, antes mesmo de ser moda geral que era necessário uma mudança nos padrões de produção da nossa sociedade.
Por sorte deixei esse envolvimento, não pela causa evidentemente, até porque na época a minha questão principal era “apenas” com a vida animal, não tinha uma visão mais profunda do tênue equilíbrio entre ecossistemas e suas relações de interdependência.
A razão principal do meu desânimo foi que achei que havia muita retórica e por vezes ficando apenas no simulacro, enquanto espécies sofriam com extrativismo.
Como menino da cidade grande, acreditei que para salvar os animais bastava usar meios coercitivos. Enfim, nada como o amadurecimento para fazer com que a luz toque nossos pressupostos. E verdadeiramente nada é tão simples assim.
Hoje vejo que a sociedade está adquirindo um nível de consciência em relação ao meio ambiente, magnífico! Em menos de uma década a preocupação com o amanhã está permeando diversos âmbitos de nossa comunidade. Isso é realmente esperançoso.
Mas cá entre nós, esperança não é de longe a solução para uma espécie que já consome do planeta 25% a mais dos recursos que ele pode dar. Ou seja, não podemos mais esperar.
A globalização faz parte do passado. Interconectividade entre povos, raças e crenças também já é um conceito comum, senão antigo.
A próxima sacada humana deve ser: Como transformar esse mundo que ficou pequeno, de uma maneira que trabalhe cooperativamente sustentável?
Nossa ação individual, atinge sim, alguém do outro lado do planeta. E isso não é papo de eco chato. Meus amigos economistas e sociólogos podem explicar isso melhor do que eu. Ou seja, o que consumimos ou não, pode refletir aqui do lado, ou lá na Ásia.
Aí eu penso em algumas coisas que estão nos noticiários: Escassez de alimentos, preço do petróleo em alta, aquecimento global.
Afinal o que isso tem haver comigo? Com você? Com o americano, europeu, africano ou asiático? Simplesmente tudo!
Alguns sabem que faço parte de um grupo de pessoas que adora subir e descer montanhas, os Trekkers como são conhecidos. Mormente 20 quilômetros é uma moleza. Mas noutro dia, fui até um mercado próximo da minha casa, a menos de 1,2 quilometro de carro.
Falo isso com a minha dose de vergonha e culpa pelo preço do arroz que você está pagando. Francamente não havia a menor necessidade de percorrer esse trecho ridículo de carro.
O nosso estilo de vida, além de falar mais sobre nós, do que as nossas conversas com amigos ou terapeutas, impacta mais do imaginamos no mundo. Sim! No mundo inteiro, pois tudo está conectado.
É forçoso admitir, se há alguma esperança de deixarmos o mundo, pelo menos do jeito que está para filhos e netos, vamos ter de abrir mão dos alguns confortos que a vida pós moderna nós acostumou. Nesse cenário, o menos será mais. Excessos serão quase que pecaminosos.
Seis e meio bilhões de pessoas consumindo é muita coisa. E o pior, uns estragam e outros padecem.
Meu velho pai sempre me disse:
“-O inferno está nos excessos!”
Hoje começo a compreender essa frase com uma clareza devastadora, literalmente.
Não importa se os países ricos acabaram com suas florestas. Não importa se liberam toneladas de carbono na revolução industrial. Afinal de contas, isso passou. Não dá para reeditar.
Meus amigos e minhas amigas, eu confesso! O mundo está aquecendo, por minha culpa!
Não significa que eu posso ir de carro a uma distância de 1,2 quilometro, que eu deva.
Não significa que o preço da batata grande e do refrigerante grande é o mesmo que o da promoção média, que eu deva. Pois na promoção grande algo vai ir para o LIXO!
Jogar fora sempre foi um pecado, a despeito dos avisos de nossos avôs, continuamos fazendo. Fazemos isso com água, luz, combustível, refrigerantes, comida, roupas, papel, e uma infinidade de coisas.
Mesmo para quem está no topo da escala socioeconômica e pode consumir sem se preocupar com limite de cartão de crédito, não DEVE fazê-lo sem a devida auto análise do motivo real daquele consumo.
Certamente esse conceito, vai de encontro com a idéia de crescimento mercadológico das empresas. Mas teremos que reinventar meios de lucratividade para as empresas num cenário, que deve conter o consumo, a níveis conscientes.
Francamente não sei, ainda, se isso será possível um dia. Mas estou tentando fazer a minha parte. Bebo refrigerante em lata, tento não comprar mais garrafas plásticas. E sobretudo: Como, bebo, compro, apenas o que for realmente usar. O que eventualmente for para o lixo, prefiro comprar numa segunda ida ao local que vende.
Não vou me render a um estilo de vida, que compromete o meu bem estar no futuro.
A crise mundial de alimentos possui três aspectos:
1) Demanda na China;
2) Quantidade finita da área cultivada;
3) A produção de fertilizantes também é limitada, o potássio, mineral básico desses compostos têm sua extração, em jazidas que não podem ser abertas da noite para o dia.
Aquele feijão com arroz que vai para o lixo, teve um peso enorme para o planeta em custos ecológicos. Consumiu combustíveis fósseis, água, luz e uma centena de compostos químicos para chegar até ao nosso prato, e vai consumir para ainda para chegar a um aterro. Além disso ele falta para mais de um bilhão de pessoas ao redor no mundo.
Portanto, enquanto não temos grandes soluções, vamos fazer as pequenas, as que estão ao alcance de pessoas comuns como nós.
Consumir o que não se efetivamente precisa é temerário em uma época que a humanidade ainda pode fazer escolhas.
Talvez nossos filhos não possam ter escolhas.
Possa ser que daqui a 40 anos a água seja racionada. Os restos de alimentos, sejam, obrigatoriamente reutilizados de alguma forma para as camadas basilares das sociedades.
Não me é difícil imaginar que uma folha tenra de rúcula ou alface tenha um custo comparado a uma garrafa de vinho dos dias de hoje, nesse futuro desastroso.
Que lá, nessa época, a derrubada de uma árvore seja um crime com as mesmas proporções de um genocídio, pelo fato de que a área verde ocupa pouquíssimo espaço no planeta, e o estado movimentará grandes recursos para preservar as restantes.
È um cenário spilberguiniano, sim, é sim, mas é altamente possível, se mantivermos o nível de consumo que temos.
Não devemos nos privar de nossos confortos, mas devemos pensar em utilizá-los de maneira racional, assim como nossos avôs.
O excesso é o inferno das coisas (José Laginestra), está mais nítido do que nunca.

Abian M. Laginestra

21 de Maio de 2008

Homem Natural

Publicado por admin em Comportamento

Do verde das montanhas que invade o meu apartamento,
capto a força do meu passado.
Como quem monta peças do quebra cabeças da vida,
Sinto o chamar dos primórdios.
Do alto da janela da civilização sinto saudades de um tempo que não vivi.
Tendo saudades do homem natural que nunca fui.
Por isso, creio eu, essa sanha infundada,
de amar o desconforto.
Valorizando o natural e o menos sofisticado.
Sinto-me confortável com o cantar dos pássaros e
com o pé no barro.
Perna na água corrente e costas na areia quente.
Que falta me faz o verde ar,
Daquele úmido, perfumado,
que marca o peito e limpa a mente.
Que falta me faz até os insetos.
Vivo esse tempo cinza, onde o colorido é digital.
Mas como quero estar com a cor natural.
Como gostaria para esse mesmo verde ir,
Fugir, rugir e lá ficar.
Mas tenho medo, porquê um dia,
Esse verde virará cinza.
Virá a ser um móvel, quiçá um sofá.
E da janela do meu apartamento,
Verei apenas os edifícios,
Meu Deus,
Onde iremos parar?
Do futuro tenho medo.
esse mundo está ficando muito aconchego.
Por isso, enquanto ainda posso.
Visito a mata e os meus antepassados.
Trago o meu lixo e evito abrir novas rachas.
Numa trilha mato os problemas.
E lá no longe vejo uma ema.
Uma capivara e um gambá.
Porque de perto eles nem querem chegar.
Afinal sou o bicho homem.
Que lá vive, mas agora já não sou
Mais daqui.

Abian M. Laginestra

21 de Maio de 2008

Tolice

Publicado por admin em Comportamento

Sofro pela tolice dos homens e mulheres,
um sofrer desvairado e sem sentido.
Quase que, igualando-me em tolice e insensatez.
Afinal para que tanta preocupação?
Choro por aqueles que usam armas,
e longe estou da perfeição.
Dói a adaga dos que marcam seu próprio caminho com a discórdia.
Sinto-me perdido, largado nesse mundo de meu Deus.
Olho as gotas que pingam da boca daqueles
que esbravejam e ouço silêncio, ora repugnando-me,
ora compadecendo.
Uso lenços para limpar a lente do meu pensar,
receio contaminar-me com a tolice alheia,
quero viver para sempre em infância,
sem mácula e com um olhar na luz.
Sim, estou vivendo em sonhos,
delirando naquilo que talvez nem eu mesmo
possa ter controle.
Acordei numa noite e vi a raiva,
com a minha face como máscara,
senti medo de mim mesmo.
então me decidi fechar a porta para ela,
tirei seu lugar e prato da minha mesa,
retirei seu lugar ao pé da minha cama,
Do meu peito expulsei-a.
Hoje vejo o poder hipnótico que ela exerce,
O seu brilho vermelho, viciante e tenso.
Mas nunca gostei de nada que domine minhas asas,
Sou cavalo sem cela.
Meu pensar vai longe, chegando aonde o azul ganha pontos que brilham.
Meu pensar vai aonde a risada de uma criança,
consegue chegar.
Imperfeito,
sofro,
pela tolice,
dos que acreditam que ela é uma forma
perfeita de sobrevivência e ordem social.
Crianças conseguem tudo que querem apenas com um abraço
e uma risada.
Cheguei a tocar as asas de um anjo,
Agora entendo o quanto há de amor na criação.

Abian M. Laginestra

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