O Gerente Ex-perto dos Santos e o funcionário Tolo da Silva.
Ex-perto era uma pessoa simpática e amigável, sempre com uma frase de efeito e um sorriso nos lábios.
Já o Tolo da Silva era calado e sempre sério. Era avesso as manchetes do fumódromo e a sala de café, longe de ser um estilo forçado, isso era algo natural de sua personalidade.
As pessoas nada tinham a falar do Tolo, afinal, cumpridor de suas tarefas e zeloso com seus afazeres não permitia margem para a imoralidade alheia, era simplesmente enfadonho falar dele.
Ex-perto por sua vez, com seu brilhante sorriso e o lépido tapinha nas costas, sabia através de todas as fontes oficiosas da intimidade de seus pares, subordinados e superiores, talvez naquele cenário, fosse algo imprescindível a sobrevivência, talvez…
Mas o fato era o Tolo.
Ele em seu silêncio divagava sobre questões morais e via nisso tudo uma enorme perda de energia, seu próprio âmago criara asco com a atitude de Ex-perto. Outrora pensou certa vez:
- Poderiam ter sido amigos de pescaria.
Mas as visões antagônicas geraram naturalmente uma história a parte.
Ex-perto subiu e virou chefe direto de Tolo, que na sua humildade de sentidos, viu a possibilidade de finalmente criar laços mais sólidos com o gerente e assim corrigir toda aquela indecifrável repulsa.
No início, Tolo motivado sentiu-se possuidor de um papel especial naquela organização. Auto didata colocou para o papel suas observações e tinha em Ex-perto seu mestre. Mas nada é mais cruel que a sucessão de dias para algumas questões. O senso pragmático de Tolo lhe dizia que estava na hora de mudar o papel e em um conflituoso embate deu voto a chance para seu chefe.
Certa vez, ao estar próximo ao fumódromo pensa em, pela primeira vez comungar com as pessoas dali e escuta Ex-perto dizer:
- Tolo é uma Zebra! Deu apenas sorte!
Apático e triste ele caminha para sua sala. De fato Tolo deu sorte em arranjar aquela posição, mas ciente disso, se empenhava para mantê-la e quem sabe pode crescer.
Zebra… Zebra… Zebra…
Essa frase ecoava pela sua mente sempre que via Ex-perto.
Ele percebeu que nunca poderia pescar com seu chefe.
Anos se passaram e o seu asco já era, enfim, sentido por todos e apesar de seu firme propósito em manter-se em silêncio, até o dono da empresa já havia percebido a total falta de prestígio que Ex-perto tinha com o Tolo.
Ele por sua vez estava nitidamente cansado e sua aparência combalida já não lhe fazia jus a quem de fato, era.
Por fim Tolo consegue a duras penas uma nova posição no mercado, apesar de ter uma queda considerável em seu orçamento ele decide seguir em frente e se livrar daquele cenário. Exultante, pensa:
- Findo o meu horário, nada levarei daqui.
Começa o trabalho na nova empresa e anos se passam. Ele aprende que sua firmeza em relação aos seus propósitos estavam certos.
Ex-perto se aposenta naquela empresa.
Tolo continua seu caminho e vai galgando lugares graças aos trabalho duro e sobretudo, a maneira de ser fiel com as pessoas.
Por fim, o RH envia o candidato escolhido para a aprovação de Tolo, que adora o rapaz novo.
Mas quando depara-se com a ficha lê assombrado:
Ex-perto Filho dos Santos.
O rapaz que até então, feliz encontra-se, por havia percebido no ar um ambiente positivo, fica apreensivo.
Tolo, a despeito de todas suas qualidades não consegue vencer esse obstáculo e termina a entrevista. Antes de Ex-perto Filho sair, Tolo diz:
- Diga ao seu pai que esteve comigo (o recado era claro, não para o filho!).
O departamento de Recursos Humanos envia outro candidato, que acaba sendo contratado.
Ex-perto Filho chega em casa e conta sua experiência ao pai. Ali ficam durante alguns instantes num silêncio inquietante. Ex-perto diz para o filho:
- Hoje da pior maneira possível acabei lhe dando a maior lição sobre o que não devemos fazer nas empresas.
E então começa a história:
- Eu era assim..
Abian Laginestra